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Como a Colômbia substituiu a Guerra pelo Turismo

As regiões mais remotas da Colômbia foram pacificadas, atraindo a atenção de estrangeiros para as belezas e a história do país sul-americano.

As regiões mais remotas da Colômbia foram pacificadas, atraindo a atenção de estrangeiros para as belezas e a história do país sul-americano.


Devastadas pelo narcotráfico e pela guerrilha, algumas regiões da Colômbia estavam longe de ser consideradas destinos turísticos.

No guia Lonely Planet sobre o país, por exemplo, diversas áreas ainda estavam completamente cinza: sem recomendações de restaurantes, hotéis ou pontos turísticos. Somente uma se destacava, dizendo “melhor não ir por aí”.

Essa recomendação vai de acordo com o imaginário que temos da Colômbia. Pablo Escobar e seus carros-bomba foram reavivados em nossa memória pela série estrelada por Wagner Moura.

O acordo de paz com as Farc, a guerrilha, por sua vez, só foi firmado em 2016 e sua implementação ainda está em progresso.

Para os colombianos, essas são ainda feridas abertas que escancaram ao mundo os problemas políticos tão caros à América Latina. Apesar disso, elas servem de alento à quem vive do turismo e a quem deseja visitar o país.

O boom no turismo colombiano

Entre 2005 e 2016, o turismo receptivo na Colômbia cresceu 12,2%, três vezes a média mundial.

Em cinco anos, a quantidade de estrangeiros que visita a Colômbia passou de 1 milhão para 6 milhões ao ano. Somente em 2017, o crescimento foi de 27% em relação ao ano anterior.

Números sem precedentes que fizeram a indústria se tornar a terceira maior do país, atrás apenas do petróleo e dos hidrocarbonetos, e substituindo atividades históricas como o cultivo de banana e café.


Média anual de crescimento em porcentagem.
Gráfico feito pela BBC a partir de dados da Organização Mundial de Turismo (OMT), 2018.

Da Guerra ao Turismo

Para a ProColombia, entidade governamental dedicada à promoção do turismo colombiano internacionalmente, não se pode desconectar o boom no número de visitantes com a pacificação do país.

Novas rotas têm surgido por regiões que até alguns anos atrás eram consideradas áreas de conflito, como Caquetá, Putumayo, Casanare e Bolívar.

O desafio do governo colombiano ao promover esses destinos é garantir a segurança dos visitantes, muitos deles mochileiros que desejam explorar o país de ônibus ou carona, acampar na floresta e ter experiências autênticas.

Photo by Maria Fernanda Gonzalez on Unsplash

De onde vêm os visitantes

A maioria são norte-americanos, que compõe mais de 22% dos estrangeiros que desembarcam no país, segundo a Organização Mundial de Turismo. Atrás deles estão os latino-americanos: venezuelanos, argentinos, brasileiros e mexicanos (cada representando 8% dos visitantes internacionais).

Existe ainda um crescimento no número de asiáticos que visitam a Colômbia, atraídos pela natureza, divida em quatro grandes biomas e com regiões que incluem a floresta tropical e a cordilheira andina.

As belezas naturais, a história e a cultura local colombianas estão aparecendo cada vez mais em sites e revistas especializadas, que colocaram o país como “destino da moda”. Assim, estão lentamente colorindo um mapa que antes era cinza.

Para ir além da notícia

A antropóloga norte-americana Florence Babb escreveu um ótimo livro sobre o turismo pós-revolucionário, chamado The Tourism Encounter: fashioning Latin American nations and histories (Stanford University Press, 2011).

Analisando o cenário em Cuba, Nicarágua, Peru e México, ela mostra como o turismo vem mudando estas nações e a nossa concepção sobre elas.

Ela também mostra como as pessoas que vivem do turismo nesses destinos usam a guerrilha e os levantes revolucionários para atrair visitantes, oferencendo tours focados no tema por locais como o centro histórico de Havana.

Os casos podem ser comparados ao que sobrou da atuação das Farc na Colômbia, uma guerrilha com pretensões revolucionária que acabou por se unir ao narcotráfico, destruindo milhares de vidas pelo caminho.

Seguindo essa tendência, é possível perceber que cada vez mais há tour em Medellín pelas casas de Pablo Escobar, por exemplo. E ninguém pode julgar os colombianos por fazer dinheiro com a dor do passado.

Mariana Eberhard vive em Berlim, onde conclui um Ph.D. em sociologia do turismo. É jornalista e socióloga por formação, e atualmente é escritora e tradutora freelancer – traduzindo do Inglês, Espanhol e Alemão para o Português. Em seu tempo livre ela gosta de ler, perder tempo vasculhando a Netflix e descobrir os segredos da cidade onde mora.

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