Estrada da Morte Bolívia
Artigos

A mágica das estradas bolivianas

Minhas histórias de quase morte pelo país andino, ônibus quebrados, folhas de coca, pés de galinha e voltar à ter fé no universo.

Eu me lembro de rezar pela minha vida naquela viagem entre Vallegrande e Salar de Uyuni, durante um mochilão pela Bolívia em 2012. O ônibus em que estávamos dirigia a uma velocidade impensável para a situação da estrada, na beira de um desfiladeiro mortal na Cordilheira dos Andes. E o motorista se mantinha acordado mascando folhas de coca.

Pegamos o ônibus noturno porque fazia sentido. Economizaríamos uma diária de hostel, o tempo passaria mais rápido e chegaríamos em Uyuni pela manhã sem sentir o soroche, os males da altitude que afetam os novatos que chegam às terras mais altas dos Andes. Parecia a solução perfeita, mas mal sabíamos que o que teríamos que enfrentar naquela noite.

O ônibus balançava como folhas ao vento naquela estrada de chão e parecia deslizar nas curvas, desafiando a gravidade. “Meu Deus, não me deixa morrer hoje, por favor” dizia eu para o ser todo-poderoso. Às vezes eu colocava a música “Meu gloriosos São Cristóvão”, de Jorge Ben e Gilberto Gil. O santo padroeiro dos viajantes não me deixaria na mão.

Não sei como saímos vivos dessa experiência andina. Também não sei como eu não abri a janela e vomitei aquele misto de ânsia e medo, um ato que acabou por ser tornar hábito nos três meses que já passei em terras bolivianas. Felizmente, todos os passageiros daquele ônibus velho e sujo saíram ilesos.

Não que os nativos ligassem para o que estava acontecendo, ou ao menos pareciam não ligar, como se estivessem acostumados a ter experiências de quase-morte a cada viagem dentro de seu próprio país. As montanhas logo viraram deserto, vales e o pesadelo finalmente tinha acabado. Ou não.

Antes de chegar à Uyuni, o ônibus quebrou. Mais especificamente depois de passarmos por Potosí, a cidade símbolo da exploração dos minérios e da mão de obra indígena da Bolívia por colonizadores (antigos ou modernos). Paramos no meio do deserto e fizemos aquele xixi no meio da nada – outro hábito adquirido na Bolívia é não me importar se alguém me ver mijando ao ar livre.

Só que eu já estava há horas sem comer nada que me desse sustância. Biscoitos já não matavam a minha fome e eu estava prestes a desmaiar. Depois de horas parados enquanto os motoristas consertavam o ônibus, finalmente seguimos viagem. Eu me lembro também da cor da paisagem. Tons terrosos, vermelho, o alaranjado da areia de um deserto salpicado de plantas secas que seguiam vivas apesar de todas as condições climáticas indicar que ali não era lugar de planta viver.

Mais horas no ônibus e parados em uma casinha no meio do nada. Eu não estou exagerando aqui, havia o nada e bem no meio, uma casinha de barro e telhado vermelho que combinava com a paisagem. Era qualquer coisa entre restaurante, uma casa, banheiro, parada de ônibus. Ali íamos almoçar, apesar de já serem quase seis da noite.

Na Bolívia é comum tomarem uma sopa antes da refeição. Eu sempre passo porque, assim como a Mafalda de Quino, eu odeio sopa. Talvez odiar seja um verbo forte demais para isso, mas posso dizer que não sou fã de sopa, especialmente as sopas bolivianas. Mas a forma era tamanha que eu tomei aquele prato como quem nunca experimentou coisa tão gostosa.

No centro do prato, que continha um líquido salgado, grãos de arroz e outros vegetais desconhecidos, havia um pé de galinha. Com os dedos dobrados e a as unhas apontando para cima, refletindo a posição em que o animal estava quando morreu. Quando mais eu tomava a sopa, mais o pé aparecia, até ficar só aquela iguaria no meio do prato fundo.

Eu não comi o pé de galinha, nem morri na estrada, mas essa experiência se tornou quase uma profissão de fé para mim que, naquela época, dizia nem acreditar no deus cristão. A mágica das estradas bolivianas é fazer ateus acreditar em uma força maior, como um avião que está prestes a cair e faz até o mais adulto gritar pela mãe.

Essa é só uma das minhas histórias das estradas na Bolívia. Já fiquei horas paradas no meio da floresta porque a rodovia havia cedido completamente. Já enfrentei 700 km em estradas de chão que deixariam as autoestradas brasileiras parecendo coisa de primeiro mundo, já atravessei a fronteira com o Chile para descobrir que, naquele outro canto do fim do mundo, acontece uma enorme feira livre que vende de tudo sem cobrar impostos.

Estrada da Morte na Bolívia

Podemos culpar a infraestrutura precária do país, o terreno ou a montanha. Mas no fim das contas, interessa mesmo resolver o problema dos outros? Os tours de bicicleta pela “estrada da morte” em Laz Paz mostram que passar por essas situações faz parte da experiência de viajar pela Bolívia. O lance é aceitar o destino, não se importar com as galinhas no corredor do ônibus e seguir viagem. O resto vira história para contar.

Mariana Eberhard vive em Berlim, onde conclui um Ph.D. em sociologia do turismo. É jornalista e socióloga por formação, e atualmente é escritora e tradutora freelancer – traduzindo do Inglês, Espanhol e Alemão para o Português. Em seu tempo livre ela gosta de ler, perder tempo vasculhando a Netflix e descobrir os segredos da cidade onde mora.

0 comentário em “A mágica das estradas bolivianas

Diga-nos sua opinião:

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: